“As pessoas só querem saber o que elas querem saber”

Conferência de Nora Paul

“From Information Superhighway to The Cloud: Ongoing Opportunities and Overwhelming Challenges for Cyber-Journalism” fechou o #6COBCIBER. Foto: Ana Isabel Reis

A professora da Universidade de Minnesota e uma das referência em ciberjornalismo no mundo, Nora Paul, foi quem realizou a conferência de encerramento do #6COBCIBER. Em sua fala, a pesquisadora observou quais são as ameaças ao ciberjornalismo, quais são as mudanças que o ciberjornalismo trouxe para a sociedade e quais são as perspectivas para o futuro.

Algumas pessoas vêem a falta de um modelo de negócio como a principal ameaça ao ciberjornalismo. Outros culpam a mudança de hábitos no consumo de notícias. Há quem diga ainda que o problema do ciberjornalismo são os jornalistas que não mantém os padrões de qualidade ou são arrogantes.

Nora Paul avalia que a internet abriu uma leque de possibilidades para os jornalistas, e fez enormes promessas: um local onde é possível encontrar qualquer documento, informação sobre governos, onde se recebe primeiro as informações, onde é possível saber sobre o que as pessoas estão falando.

Se a metáfora para a internet há duas décadas era autoestrada de informação, hoje é a metáfora que se usa é a da nuvem, diz Nora. “Em uma autoestrada, você pega o carro e sai de um ponto até outro. Na nuvem, não há isso”, diz ela, ao acrescentar que nada é sólido, não há controle.

O que mudou para o jornalismo? “As pessoas só querem saber o que elas querem saber. É diferente da lógica do jornal impresso, em que você virava a página e havia diversos assuntos novos para ler. Hoje há tanta informação, de forma tão fácil, disponível”, analisa.

Clickbait se tornou uma estratégia de disseminação porque não é importante se alguém clica no link, mas se o compartilha. “Um estudo da Universidade de Columbia mostrou que 59% dos links compartilhados nas plataformas de media sociais nunca foram clicados. As pessoas formam uma opinião sem o esforço de se aprofundar”, destaca.

Ler mais profundamente e mais criticamente poderia ajudar na crise de fake news, diz ela. “Quanto menos você sabe, mais você acredita”, diz Nora.

É também uma oportunidade para as organizações de notícias, acredita a pesquisadora. “E se as organizações também educassem, treinassem pessoas contra fake news, os consumidores de notícias, as crianças e seus pais?”, questiona.

Nora traz a visão de Lucy Maynard para inverter a pergunta e aponta quais são as principais ameaças que o ciberjornalismo pode trazer ao futuro. “Lucy Maynard disse, em 1923, que o jornalismo tem função sobretudo de registrar todos os interesses humanos contemporâneos, atividades e condições para servir ao futuro”, observa.

Na internet, a memória se perde, diz Nora. “O pior problema é que muitas coisas se perdem na internet. Há diversos links quebrados pois se muda de servidor e se perde muita coisa. O New York Times publicou online pela primeira vez em 1996 mas nem o primeiro registro online, nem a primeira semana, nem o primeiro mês estão disponíveis”, pontua.

Outra questão é que no mundo analógico, havia tempo de produzir, de ler, os prazos eram definidos. No mundo das notícias online, o prazo é sempre agora.

“Estamos em um mundo em que as notícias são constantemente atualizadas, se diz: isso é o que sabemos até agora. São múltiplas versões até o texto final. Mas que versões o leitor está a encontrar em uma história que muda com o tempo?”, analisa.

A nuvem, diz ela, nada mais é que “fazendas” de servidores em um lugar qualquer do Arizona.

Os modelos de negócios não chegaram lá ainda para o ciberjornalismo, nem os anunciantes. Mas, na visão de Nora, estar ali na rua, a fazer seu trabalho, a estar junto de toda a gente: esse é o melhor trabalho que o jornalista pode fazer para atravessar todas essas ameaças e seguir sendo fundamental para qualquer democracia.

Luísa Guimarães Torre (CC, mestrado)

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R2iC avança no #6COBCIBER

Estudo ObCiber

Fernando Zamith e Raquel Bastos apresentaram a R2iC, revelando as tendências de investigação na área. Foto: Ana Isabel Reis

Uma rede internacional para conectar pesquisadores e professores, da Europa e da América, com o objetivo de perceber as tendências da investigação e avançar na pesquisa de ciberjornalismo no mundo. Esse é o propósito da R2iC – Rede Internacional de Investigação em Ciberjornalismo, anunciada nesta sexta-feira (23), no #6COBCIBER, na Universidade do Porto, durante o painel “Tendências da investigação internacional em ciberjornalismo”, apresentado por Fernando Zamith e Raquel Bastos.

“Contratempos impediram a discussão da rede no passado, mas este ano retomamos a discussão. O nosso objetivo é levantar o que está a ser feito e desenvolver mais projetos de investigação numa rede internacional”, aponta Zamith.

O mapeamento das tendências e realizações em investigação da produção jornalística online já foi iniciada, a partir do projeto de mestrado de Raquel na Universidade do Porto. Toda a informação está disponibilizada no site http://riic.ubi.pt/.

Inicialmente foram identificados os principais eventos e congressos de organismos que vão integrar a rede: o Congresso Internacional de Ciberjornalismo (CIBERJOR), no Brasil, o Congresso Internacional de Ciberjornalismo (COBCIBER), em Portugal, o Congreso Internacional de Ciberperiodismo, em Bilbao, na Espanha, o Foro Internacional de Periodismo Digital, na Argentina, o International Symposium on Online Journalism (ISOJ), no Texas, Estados Unidos, e o Congresso de Jornalismo para Dispositivos Móveis (JDM), em Portugal.

Em seguida, o estudo identificou os autores mais citados na área de investigação do ciberjornalismo. Para identificar artigos, livros e teses, foram pesquisadas palavras-chave como “online journalism” (jornalismo online), “digital journalism” (jornalismo digital) e “cyberjournalism” (ciberjornalismo).

“A partir de 2009, é possível ver que há um crescente da publicação de trabalhos sobre o tema. Analisei mais de uma centena de artigos e as tendências que observei, a partir de keywords (palavras-chaves) e abstracts (resumos), o que mais apareceu foi: media sociais, interatividade, audiência, multimedia e participação”, revelou Raquel.

Outras duas tendências que têm ganho força nos últimos anos mas ainda não tem volume significativo de trabalhos, segundo a investigadora, são a inteligência artificial e as fake news.

Luísa Guimarães Torre (CC, mestrado)

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“Cultura da escuta” para combater ameaças

Conferência de Manuel Pinto

“As ameaças ao (ciber)jornalismo que vêm do próprio campo jornalístico” foi a proposta trazida por Manuel Pinto. Foto: Ana Isabel Reis

O jornalismo tem vindo a desenvolver-se nas últimas décadas, face a plataformas emergentes que vieram afirmar-se no espaço público. O surgimento da internet trouxe até às pessoas uma fácil e rápida ferramenta para tomar a palavra. Manuel Pinto, da professor e investigador na Universidade do Minho, considera que “estamos diante de alguns desafios que precisam que pensemos de maneira diferente sobre a nossa profissão”, uma vez que se criaram condições que põem em causa o consumo e credibilidade do conteúdo jornalístico tradicional.

O orador considera que as ameaças ao ciberjornalismo são tanto internas como externas e que “é uma visão bastante redutora pensar que os problemas do jornalismo se resolvem apenas através do jornalismo”. Estes problemas surgem externamente, mas consolidam-se internamente, face à posição que os próprios jornalistas tomam em relação a eles. “O jornalismo é um problema e é parte dos problemas com que a sociedade se debate porque ajuda a construí-los, mas é também parte da solução numa esfera dominada cada vez mais pelo entretenimento e pela lógica do lucro”.

Manuel Pinto defende que esta realidade pode e deve levantar nos profissionais do jornalismo importantes questões: porque é que apesar das ameaças serem cada vez mais claras não há o desencadeamento direto de uma posição de preservação por parte dos jornalistas? Em contrapartida, em que medida é que a situação suscita novos desafios?

Falta, na opinião do orador, uma posição e visão menos redutora dentro do campo do jornalismo: “o jornalismo é um conjunto de discursos sobre a vida social e desse ponto de vista nada do que se passa na sociedade é indiferente aos destinos que o jornalismo tem”.

Para sustentar a sua ideia parafraseou Abel Salazar, conhecido médico, numa ideia que mostra que o universo de uma profissão vai muito mais para além de si mesma: “um jornalista que só olha para o jornalismo, nem para o jornalismo olha”.

A discussão focou-se em parte no jornalismo cidadão como grande ameaça ao ciberjornalismo. “Em que medida é que a agenda jornalística é uma agenda que é um privilégio e uma prerrogativa apenas dos próprios jornalistas? Em que medida é que a construção da agenda é algo que ganharia ou perderia em ser partilhada com os públicos do próprio jornalismo?”

Manuel Pinto considera que o jornalista tem de ser independente das suas fontes, nos processos que utiliza e naquilo que produz. Não há, assim, ninguém capaz de fazer o mesmo trabalho com a mesma competência.

Este crescimento de plataformas que se dizem informativas, mas acabam por não o ser, provocam um aumento na desconfiança face à informação, incluindo a jornalística. Manuel Pinto colocou várias questões: em que medida é que aquilo que vem do lado dos públicos não poderá fazer parte da solução do lado dos jornalistas? Em que moldes se poderá fazer um jornalismo mais participado?

O orador salientou a importância dos projetos ligados à literacia mediática em agrupamentos de escolas, já a ser desenvolvidos pelo Sindicato de Jornalistas, e afirmou que é necessário desenvolver a “cultura da escuta”: “não é só por as pessoas a manifestarem-se, mas também abrirmo-nos a essa voz e por outro lado desenvolver essas competências de escuta”.

Terminou a conferência com uma reflexão acerca da obra “Os Elementos do Jornalismo”, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, abordando-a como um estudo do jornalismo que tem vindo a precisar (e a receber) atualização, “foi capaz de captar um sinal dos tempos”.

Carolina Alves (CC, licenciatura)

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#6COBCIBER recorda o #JDM2018

A abrir o último dia do #6COBCIBER, Fábio Giacomelli apresentou aquilo que foi o JDM – Jornalismo em Dispositivos Móveis, congresso internacional que de teve lugar na Universidade da Beira Interior , nos dias 19 e 20 de novembro.

Eva Dominguez, especialista em jornalismo imersivo, conduziu a Conferência de Abertura. Aqui foram exploradas as potencialidades das tecnologias imersivas e de realidade aumentada aplicadas ao jornalismo.

Nos dois dias do JDM foram discutidas quatro temáticas. A Mesa 1 explorou as abordagens do jornalismo móvel. “Os dispositivos móveis como plataforma de consumo de notícias” foi o tema atribuído à Mesa 2, “Narrativas jornalísticas para dispositivos móveis”, à Mesa 3, e “Jornalismo appificado”, ou seja, como fazer a gestão de conteúdos para que a exploração de informação nas diferentes plataformas seja facilitada, à Mesa 4.

A conferência de encerramento desta edição do JDM, foi subordinada ao tema “Sistemas Imersivos e Realidade Virtual no Jornalismo”, conduzida por Márcio Carneiro dos Santos (FMA).

Mais informações sobre o #JDM2018, podem ser consultadas em www.jdm.ubi.pt.

Ana Luísa Sousa (CC, licenciatura)

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Público em destaque nos Prémios de Ciberjornalismo

Prémios de Ciberjornalismo 2018

Trabalhos ciberjornalísticos foram reconhecidos por um júri e pelo público. Foto: Ana Isabel Reis

O cibermeio detido pela Sonaecom – SGPS, S.A. é o grande vencedor da 11.ª edição dos Prémios de Ciberjornalismo, ao conquistar a principal categoria, Excelência Geral. Para além disso venceu ainda em Infografia Digital, com o trabalho “Rohingya: uma crise sem fim”, naquelas que foram as escolhas do júri.

Também a Rádio Renascença foi distinguida por duas vezes, por ser a melhor em Última-Hora, com “ Incêndios de 15 de Outubro Minuto-a-minuto” (#01, #02, #03, #04, #05, #06, #07, #08, #09, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16 e #17), e Narrativa Vídeo Digital, com “Pedrógão. Um ano depois do meu mundo arder”.

Os Prémios de Ciberjornalismo 2018 ficam ainda marcados não só pela diversidade de meios distinguidos, como também de estreias a vencer. É o caso do projecto Divergente, que apresentou a melhor Reportagem Multimédia, com “Terra de Todos, Terra de Alguns”. O mesmo sucedeu com o Fumaça, que se evidenciou na categoria Narrativa Sonora Digital, ao apresentar o trabalho “Palestina, histórias de um país ocupado”.

Em modo estreia esteve ainda a categoria Ciberjornalismo de Proximidade, na qual foi distinguido o Reconquista – jornal regional do distrito de Castelo Branco – com “ Famílias de Castelo Branco convidam imigrantes”.

Por fim, o prémio Ciberjornalismo Académico foi para o ComUM – cibermeio da Universidade do Minho – com “Águas paradas movem o Tâmega?”, encerrando assim as escolhas feitas pelo júri.

Já no que concerne às escolhas do público, elas coincidiram, na sua maioria, com as do júri. As excepções foram a categoria Infografia Digital, ganha pelo Jornal de Notícias, com “Pedrógão: Um ano depois, os momentos que não vamos esquecer”, e Última-Hora, que foi para o Público, com “Após 17 dias na gruta, acabou o calvário”.

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Cliques, tempo, negócio e precariedade são ameaças

Debate “Ameaças ao Ciberjornalismo”

Debate com Miguel Soares (Antena 1), Pedro Miguel Santos (Fumaça), Sérgio Sousa (V Digital) e Sofia Branco (Sindicato dos Jornalistas), com moderação de Luís António Santos (Universidade do Minho). Foto: Ana Isabel Reis

A tarde do primeiro dia de #6COBCIBER terminou com um debate, no qual foram protagonistas Miguel Soares, editor-coordenador para as redes sociais da Antena 1, Pedro Miguel Santos, diretor do Fumaça, Sérgio Sousa, diretor do V Digital, e Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas. Luís António Santos, da Universidade do Minho, foi o moderador.

A tirania do clique, a falta de tempo, a sustentabilidade dos modelos de negócio e a precariedade do trabalho dos jornalistas, foram algumas das ameaças apontadas pelos intervenientes.

Para Miguel Soares, é necessário que os jornalistas compreendam que o consumo de informação mudou radicalmente. Para ele, o clique se tornou o principal desafio ao ciberjornalismo.

“As pessoas já não vão, sobretudo os mais novos, aos sites noticiosos. As pessoas pesquisam informação e veem a informação que querem. As redes sociais tornaram-se a principal fonte de informação das pessoas”, observa.

O tempo é o principal desafio para o ciberjornalismo, na visão de Pedro Miguel Santos. Outra preocupação é ter recursos suficiente para fazer jornalismo e ter independência. “O que é mais importante é a transparência. A nossa missão é que seja possível pagar o nosso trabalho com a contribuição das pessoas. O futuro vai ser mais o financiamento do jornalismo em si, que propriamente de empresas”, avalia.

Sérgio Sousa concorda com o diretor do Fumaça. “A monetização, como transformar trabalho em dinheiro, é a principal ameaça”, diz. E complementa: “Toda a gente está a procura de modelos de negócio para manter o jornalismo. Só teremos independência editorial se o jornalista souber que pode pagar a renda e o veículo sabe que vai pagar os custos”.

Por fim, na perspectiva de Sofia Branco, é a precariedade que ameaça o ciberjornalismo. “O jornalismo tem sido mal gerido e com poucas lições tiradas disso. O desemprego é crescente e isso preocupa, e também preocupa a taxa de trabalhadores a abandonar a profissão. As empresas não são nada sem os jornalistas que têm”, observa.

Luísa Guimarães Torre (CC, mestrado)

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Desinformação generalizada traz desafios ao ciberjornalismo no Brasil

Conferência de Beth Saad

“Cenário das iniciativas a combate às Fake News no Brasil”, foi o tema da conferência de Beth Saad (Univ. São Paulo). Foto: Pedro Jerónimo

O fenômeno das fake news tornou-se uma preocupação global após episódios como o Brexit, no Reino Unido, e a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Analistas acreditam que nesses dois momento as populações possam ter sido determinantemente influenciadas por notícias falsas – ou o que convencionou-se chamar na imprensa de fake news.

No Brasil, as eleições gerais de 2018 representaram um marco para esse fenômeno, defende a professora da Universidade de São Paulo, Elizabeth Saad. Ela apresentou, na tarde desta quinta-feira (22), o cenário das iniciativas a combate à desinformação no país sul-americano. Por lá, embora as empresas de comunicação tenham criado coalizões para melhorar o ambiente informativo, alguns problemas ainda persistem.

Elizabeth observa que no mundo há algumas iniciativas de combate à desinformação que precisam ser ressaltadas. Uma delas é o projeto First Draft, que propõe coalizões ou atividades colaborativas do campo da mídia com objetivo de checar informações, com uma uniformidade na definição dos conceitos, fazendo que a prática de checagem seja mais precisa e similar entre todos.

Outro ponto é a alfabetização midiática, pontua ela. “O papel do jornalismo nesse processo é de fazer com que a população, a audiência, entenda o que seja notícia, verdadeiro, falso, confuso”, aponta ela, ao citar o manual da Unesco.

Segundo a pesquisadora, o Reuters Institute for Journalism Studies tem uma definição de fake news, onde apresenta uma espécie de escala para esse tipo de conteúdo. “A sátira, o jornalismo pobre (poor journalism), a propaganda, o conteúdo pago e a notícia falsa. Essa classificação é feita do ponto de vista da compreensão que a audiência tem sobre os conteúdos que visualiza na rede. Essa compreensão tem a ver com o nível de alfabetização midiática”, diz Elizabeth.

A pesquisadora defende, em linha com a IFCN, rede global de jornalistas que trabalha com fact-checking, que é preciso criar uma metodologia estruturada para trabalhar com checagem de informação. “É essencial que cada um possa checar o checador”, diz.

Um estudo global do Instituto Ipsos revela que as pessoas estão a viver em bolhas. “Na questão brasileira, 60% dos entrevistados só acredita em informações do seu próprio grupo de relacionamento. E isso limita, fecha os horizontes da compreensão de conteúdos. Nesse mesmo estudo, os entrevistados dizem que 60% do conteúdo é lido de organizações midiáticas são deliberadamente mentirosos ou enviesados”, diz a pesquisadora.

Isso é importante no Brasil porque dos 210 milhões de habitante, o número total de usuários das plataformas digitais já ultrapassa 100 milhões de usuários. “Quase metade da população usa o telefone celular como principal forma de comunicação todos os dias. Para notícias, o Facebook é a mais utilizado; para disseminar informação é o Whatsapp”, diz.

O ecossistema da desinformação se configurou muito fortemente em 2018 por conta do cenário eleitoral, avalia a professora.

“Temos essa visão: uma coalizão baseada no First Draft chamada Comprova, de 24 veículos midiáticos; as empresas de mídia, que participam da coalizão mas também criaram seus próprios processos de checagem; temos agências de checagem privadas que trabalham com checagem e vendem a sua atividade; temos as redes sociais, cada uma tem sua política; tem governo e instituições, STF (Supremo Tribunal Federal), TSE (Tribunal Superior Eleitoral), PF (Polícia Federal); temos partidos políticos que neste processo eleitoral acabaram criando seus próprios processos de checagem e memes para incentivar determinada checagem ou não; e o público que entrou com opiniões e outros memes. Tudo isso gerou essa confusão informativa durante nossas eleições”.

A falta de tomada de decisões conjuntas dentro da coalizão e a existência das seções de checagem de cada veículos foram desafios que, na visão de Elizabeth, trouxeram confusão ao público.

“A ideia de trabalho colaborativo é fragilizado pelo modelo de negócio de cada empresa. A conexão com a audiência não se solidificou, criando ondas de repercussão para os debunkings (desmentidos) e houve confusão sobre o que era fake news”, pontua.

Os desmentidos (debunkings), aliás, tiveram impactos e compartilhamento em ondas, observa a professora. “Primeiro a divulgação jornalística, seja pela empresa, coalizão ou agências. Quem presta atenção nessa primeira onda são os políticos, em campanha, e agem paralelamente por sua própria conta para reforçar ou desmentir os debunkings. Depois, há uma ação da elite intelectual mais à esquerda, reforçando o compartilhamento dos desmentidos, em contraposição à elite da direita, que reforça a informação falsa”, destaca.

Para Elizabeth, a lição que se tira desse cenário é que é preciso ressignificar o que é jornalismo diante do que aconteceu. “Hoje temos dois conjuntos ontológicos que precisam ser discutidos e aprofundados: a ontologia do jornalismo baseado em credibilidade editorial da marca, no processo de apuração; e a ontologia do fact-checking, que checa o que surge na rede e pode evitar que o jornalismo incorra em desinformação. O que define o trust não é a marca, são os dados”, afirma.

Outra questão levantada pela pesquisadora é a necessidade de uma reformulação da formação acadêmica, ao introduzir nos currículos que há desinformação. “Quanto mais você oferece informação à população sobre esse processo, mais você ajuda no processo de melhora do cenário de desinformação”, observa.

Luísa Guimarães Torre (CC, mestrado)

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